senta que começa com textão.

Eu fiz um caminho que praticamente todo mundo faz até chegar aqui. Escolhi uma profissão durante a escola ainda, muito nova. Com 14 anos eu já sabia que queria fazer Desenho Industrial. Foi numa aula de Formação Humana que tinha na minha escola. A gente precisava escolher uma profissão dentre tantas profissões e escrever sobre ela. Apresentar um trabalho. Eu lembro que escolhi Desenho Industrial por causa do nome. Achava um nome tão lindo. E adorei descobrir que o Desenhista Industrial desenhava geladeiras e fogões. Do caminho entre escolher e concluir o curso de Desenho Industrial eu dei uma leve sofrida. Uma grandesíssima sofrida na verdade.

Eu nunca fui boa em Desenho. Sempre tive pânico. Gostava de desenhar mas morria de medo dos julgamentos porque os meus desenhos nunca eram certinhos. Eu gostava das estrelas tortas, de desenhar um olho maior do que o outro no rosto das pessoas, da casa redonda, do cavalo-girafa. Tive que fazer curso técnico de desenho pra poder fazer a prova específica no vestibular. Funcionava assim: antes do vestibular em si, a gente tinha que fazer uma prova de desenho. Se você não passasse nessa prova já era, automaticamente a sua prova do vestibular valia pra segunda opção. A minha era História.

Reprovei uma vez na prova específica em Brasília, reprovei na específica em Goiânia e acho que por um milagre eu segurei na segunda prova a minha aprovação mais pelo conceito dos meus desenhos do que pelo desenho em si. Eu achava que a minha maior dificuldade tinha sido na prova específica mas não, a faculdade foi muito pior. O que eram as disciplinas de desenho? Eu sempre era a pessoa que queria fazer a pesquisa, o relatório e as apresentações. Eu quase desisti no terceiro semestre quando fiz Desenho Técnico. A aula de Desenho era um terror. Eu preferia Física para Desenho Industrial do que ficar desenhando e ouvindo música. Como eu sofri. Mas eu insisti porque no fim, na conclusão do curso eu percebi que Desenho Industrial era mais sobre ter boas ideias, era mais sobre referências, era mais sobre saber defender a sua ideia, sobre vender o seu peixe e menos, muito menos sobre o Desenho.    

 

Eu demorei muito pra ver algumas coisas. Demorei pra ver que tinha escolhido Projeto de Produto mas na verdade eu amava a Programação Visual (que é como chamavam na minha época, ainda é assim?). Amava diagramar as apresentações, fazer os videos, criar catálogos, cuidar da identidade visual. Demorei pra ver que eu amava criar o conceito das minhas ideias, as histórias por trás delas. Demorei pra ver que eu sempre era a pessoa do storytelling quando essa palavra nem habitava os meus dias. Demorei pra perceber que eu queria ser a oradora da minha turma, que eu queria falar sobre a criação. A gente demora. Porque a gente às vezes tem esse caminho pra percorrer mesmo. 

Mas eu nem tive tempo de pensar, o caminho do editorial me encontrou muito rápido e antes mesmo de colar grau eu já estava trabalhando na Editora Abril. E foi assim durante 6 anos entre Editora Abril, Globo, Carta Editorial, e de novo Abril. Foram 6 anos me dedicando ao editorial, à publicações, à contar histórias através das imagens, através das páginas. Acompanhei a chegada do ipad, as contratações em massa, as demissões em massa. Foram 6 anos do glamour dos anos dourados das editoras ao total sentimento de desvalorização daquilo que é uma das minhas maiores paixões: a revista. Mas a tempo as marcas se reinventaram com o digital e estão aí procurando os novos caminhos. Dentro da Elle mesmo vivi um grande momento dessa redescoberta da mídia. A capa espelho #vocênacapa. Quando eu resolvi sair da Elle e me mudar para o Rio sabia que o desafio seria difícil. Me reposicionar profissionalmente, ganhar novos jeitos de me expressar. Novamente fui direcionada e passei 6 meses dentro do departamento de design FARM. Foram muitos os desafios lá dentro. Depois de tanto tempo ignorando o desenho na minha vida profissional, porque revista é isso, é mais quadrado, mais certinho, mais técnico. Dentro da FARM eu me vi de frente com todas as limitações técnicas que eu tinha dentro da minha profissão. E todo dia era um aprendizado. Todo dia eu saia esgotada mas feliz de saber que estava aprendendo. Foram 6 meses que valeram por anos e onde eu tive muita ajuda de mulheres e quantas mulheres naquela empresa. Mas eu só fui perceber o quanto tinha aprendido depois.

Há 1 ano eu resolvi me testar como freela. Fiz um escritório dentro da minha casa em Botafogo e comecei a me dar oportunidades, a me testar em outras áreas. E aí a escrita foi vindo, foi chegando, foi aparecendo. Na verdade ela sempre esteve ali. Eu só não conseguia aceitar. Eu me abri pra entender o que estava acontecendo e comecei a jogar pro Universo. Lembro que fiz um texto em outubro de 2016 explicando toda a minha situação que eu acreditava ser de transição. E esse texto me rendeu frutos tão bons (a Agulha nasceu desse post!).  Naquele post eu vi uma potência nascer em mim. Uma identificação enorme de tanta gente, e em sua grande grande maioria, mulheres. De repente me senti ouvida, apoiada e percebi que naquele caminho eu poderia tentar alguma coisa porque ia ter gente pra me ouvir. Senti que o meu movimento gerou movimento(s), gerou coragem(s), e iniciativa(s). A partir daquele dia falar (e compartilhar) era muito importante pra mim. Falar em textões, em poesias, me expressar. As mulheres estavam me lendo e lendo muito, porque os meus textos, como vocês podem ver são grandes, muito grandes. As mulheres estavam ali. De todas as fases da minha vida, das cidades que morei, dos empregos que tive, minha família, de pequenos cursos de apenas dois dias, estavam ali, me incentivando e me agradecendo e consequentemente eu estava agradecendo a elas.

Por alguns momentos eu comecei a negar o design, pensei: é aqui na escrita que vai acontecer, é aqui, chega de design. Comecei a achar que não era ali que eu deveria permanecer. "Já foi, já passou." Rolou essa fase de negação até que os trabalhos certos foram me encontrando. Em janeiro deste ano eu aceitei o desafio de criar o universo visual de uma artista, a eline. E tudo isso com uma equipe de mulheres ali, se reunindo toda a semana. E todos os encontros aprendizados, discussões, sobre a motanha-russa que é empreender sozinha sendo uma mulher, sobre as descobertas, sobre se associar, sobre nos ajudar, sobre conhecer, ouvir, ceder e ainda manter viva a inspiração para a criação. Em um desses encontros eu comentei da minha angústia que era amar o design mas que eu também escrevia e como era difícil as pessoas entenderem esses dois lados, e como era chato ter que ficar explicando, e foi aí que a Julia Hirzman, do Ruiva Branding chegou a conclusão de que é, difícil entender a dupla-face, mas na verdade ela une tanta coisa, sustenta tudo (um obrigada ad.eternum por esse nome ruiva). 


E a partir daí eu comecei a ver que talvez eu pudesse unir as duas coisas. Que eu não precisava ficar escolhendo, explicando. Que talvez fosse tudo bem fazer as duas coisas e que talvez eu deveria ter um lugar pra poder colocar essas duas coisas sem precisar ficar explicando tanto. E dessa conversa, e desse lugar que eu precisava, desses dois universos que sempre existiram dentro de mim e que mais tarde com a Cris Lisboa, grande tutora, do Go Writers, eu fui perceber que no que eu era boa mesmo, que o que me dava paixão mesmo, o que eu tinha facilidade em fazer, era trazudir. E que isso tinha nome, traduzir era (e é) a minha perspectiva ampla. E que eu não precisava explicar se era de forma verbal ou não verbal, o que eu sabia fazer mesmo, e o que eu gostava de fazer mesmo era traduzir. As histórias, as ideias, os desejos, as vontades, ser uma mini-impressora. Ser uma dupla-face. Ficar ali no meio, sustentando os dois universos deixando eles aparecerem, eles serem quem são. De forma natural e mais do que tudo autoral.  

E quando escolho e quando decido que o meu ideal é o feminino, quando digo isso, digo como forma de devolver, como forma de estimular, como forma de fortalecer, de produzir tudo isso que eu venho absorvendo ao longo desses últimos anos. O meu universo sempre foi esse e quando vou me dando conta e muito por causa desse texto que os lugares que eu passei, todos, em sua maioria mulheres, e os lugares que eu passei, todos, em sua maioria mulheres muito muito fortes, mães, mulheres que saíram de casa sem nada, que mudaram de cidades, que escolheram empreender, sustentar a casa, ser inspiração, ir atrás, quando decido isso é porque em todos esses momentos eu fui tocada, fui incentivada, mesmo que silenciosamente, mesmo que das formas mais sutis, de alguma forma a dupla-face estava sendo estruturada desde sempre para este público que é o público que eu me sinto mais à vontade e que eu sei que vai ler até aqui.

Um obrigada principalmente a todas vocês. Mulheres da minha vida. Sejam bem-vindas à dupla-face.

ps: e eu que achei que não ia precisar de uma aba de blog pra escrever as minhas coisas. tolinha. vai ter textão sim. e vai ter textão sempre.

 
 

Gabriela Gomes