ser grande e querer ser pequena.

esse texto é pra falar sobre 4 coisas:

a primeira delas é sobre como passei a me sentir mais segura com o meu corpo só e somente aos 30 anos de idade.

a segunda é sobre um texto que eu li na semana passada e que falava sobre como a nossa linguagem (e principalmente a nossa conversa com outras mulheres) pode afetar como nós mesmas nos sentimos em relação ao nosso corpo.

a terceira é sobre como mesmo me sentindo mais segura com o meu corpo toda vez que eu vejo ele numa foto de biquini eu sempre me espanto comigo mesma num tom de “nossa como sou grande”.

e a quarta é sobre o que se imaginar pequena e na verdade ser grande diz sobre nós mulheres.

ah! e todas estas coisas não estão necessariamente nessa ordem que eu listei ok?

...

a primeira vez que eu me senti realmente confortável no meu corpo foi aos 30 anos: o que significa que isso só aconteceu esse ano. eu tenho pais com estruturas grandes. a minha mãe é grande. o meu pai é grande. a minha mãe tem 1,75 e o meu pai tem 1,87. além de serem altos eles são grandes. ou seja, não tinha como eu ser pequena, certo? parece simples mas eu sempre quis ser pequena mesmo com pais grandes. na minha cabeça era possível isso acontecer. ser pequena. mirrada. não ter quadris. eu perdi as contas das vezes que me vi pelada na frente do espelho segurando o meu quadril e apertando ele. segurando a parte interna das minhas coxas e segurando elas. já me imaginei fatiando o meu culote e fritando eles. já segurei as minhas gordurinhas com as mãos pelas costas pra ver como seria se a minha barriga, bom, se eu não tivesse barriga.

quando eu tinha 11 anos estava indo pra búzios com umas amigas e todas começaram a falar seus pesos no banco de trás do carro. a maioria das meninas pesava entre 30 e 35 kg. eu já pesava 50kg há muito tempo. mas eu mentia o meu peso assim como também mentia que ainda não tinha menstruado.

nessa mesma idade eu tive um crush que me chamava de muralha. isso mesmo. nem gorda, nem baleia, muralha. uma baita de uma grande muralha. aquilo acabava comigo. era como se eu preferisse ser chamada de gorda ou baleia. muralha estava automaticamente ligada à palavra grande. a grande muralha da china. um segundo crush também gerou um desconforto imenso na minha infância. na mesma búzios eu e uma amiga (pequena) estávamos vendo quem entraria na piscina gelada, ela estava de biquini e eu de maiô. meninas grandes não usavam biquinis. ficamos eu e ela decidindo. vai você. não vai você. não vai você. eis que o crush aparece adentrando a área da piscina. imediatamente eu dou um salto rumo a àgua gelada. tudo para me tapar. mesmo com uma água congelante. além ainda, do meu crush da alfabetização que não quis dançar comigo na formatura porque eu era gorda. falou em alto e bom tom que queria dançar com a milena porque ela sim, era pequena e magra.mirrada. não era pra eu ter ouvido isso mas eu ouvi. e no final ele dançou comigo porque afinal tínhamos o mesmo tamanho de corpos.

 

eu vivi numa família que sempre comeu muito bem e sempre comeu de tudo. eu andei a infância e a adolescência grudada com duas primas. uma mais velha e uma mais nova. eu era a do meio. e alguns dos nossos tios ou tias faziam a infame brincadeira das “três mocinhas elegantes, cobra, jacaré e elefante” e a gente automaticamente relacionava isso com uma competição inconsciente pra ver quem era a mais magra (cobra), a do meio (jacaré) e a mais gorda (elefante). sempre revezamos. inúmeras vezes ouvi que era pra parar de comer danoninho porque eu já estava gordinha. no recreio da escola enquanto meus colegas comiam comidas normais eu já comia biscoito integral e leite de soja. passei a vida fazendo dieta. lutando com a balança. emagreci muito aos 14 anos. e depois aos 25. cheguei no meu peso mínimo da vida (adulta), 56kg (agora é louco perceber que só 6kg a mais que a criança de 11 anos que eu era). e taí uma verdade engraçada. todas às vezes que eu cheguei nesse peso eu não me reconhecia muito. a cabeça ficava muito grande pro resto do corpo. era como se eu perdesse parte da minha identidade. mas existe uma outra verdade que eu não me orgulho muito: eu gostei de saber como era finalmente ser magra. mas eu sabia: aquilo era uma ilusão. não era saudável, não era a verdade e o pior me deixava neurótica. quantas vezes deixei de me divertir à noite com medo de engordar tudo aquilo que eu tinha perdido.

este ano pela primeira vez eu tenho conseguido me olhar no espelho e gostar do que estou vendo. e nada mudou muito, pelo menos não, externamente. me alimento normalmente, tento ser minimamente saudável e não me impeço de tomar minha cerveja, comer meu chocolate. comecei a correr mas a corrida só começou a fazer sentido pra mim depois que eu entendi que eu estava fazendo aquilo antes de mais nada pela minha cabeça. pela minha ansiedade. pelo meu sono. pelo meu rendimento e criatividade.

mas o que eu quero dizer é que por mais que eu me sinta cada vez mais confortável comigo mesma — e eu não sei se isso tem a ver com a idade que acho que sim porque parece que o corpo todo aos 30 anos se arredonda mais e faz sentido ele ser desse jeito — ou com a aceitação, ou com todas as conversas que nós mulheres temos nos esforçado pra ter, ou com lena dunham me mostrando que sim posso passar um episódio inteiro de biquini se eu quiser e posso sim correr de top na lagoa.

acontece que por mais que ainda assim eu goste de mim quando me olho no espelho eu ainda evito me ver em fotos de corpo todo ou de biquini.

o que acontece é que eu me assusto quando me vejo. me acho sempre, grande. “mas eu sou desse tamanho mesmo?” “é isso?” “as pessoas me veem assim?” é como se eu não me reconhecesse no tamanho que tenho. como se na verdade, o eu-gabriela, que mora aqui dentro fosse pequena e eu não desse conta desse corpão todo que tem aí fora. fico querendo ser pequena.

fico querendo ser pequena.

e vem a crise. porque querer ser pequena se este corpo é o corpo que eu tenho. porque não se reconhecer grande? porque não se aceitar grande?

porque não se aceitar grande.

se assumir grande e dizer. eu sou grande. essa foto aqui. eu tô de biquini e olha como eu sou grande. e tudo bem ser grande. eu sou uma grande mulher, não sou? é como se a gente achasse que a voz é baixa, que o que faz não tem alcance, que não sabe fazer o que faz, que não tem talento, ou que é uma farsa. uma impostora.

um exemplo: esse ano fiz uns retratos com uma fotógrafa mulher e com 2 pessoas que confio muito. uma prima e a minha melhor amiga de infância. ao decorrer do ~~ensaio~~ eu não tive coragem de me olhar em nenhuma imagem antes de receber as fotos editadas. eu tive medo de ver aquela mulher grande no visor da tela e não querer fazer mais nenhuma foto. tive medo de me reconhecer como tal, mulher grande, e não conseguir aceitar e pior, não conseguir nem continuar.

fiquei muito tempo pensando que eu deveria e que eu queria escrever sobre isso, desse não se sentir grande mesmo sendo e desse se olhar no espelho e gostar mas não conseguir encarar fotos de biquini. ainda mais do lado de amigas menores. sempre me assusto. olha esse corpão… e eu deveria dizer. olha esse corpão. é meu. com todos os culotes, celulites, tatuagens e a baita cicatriz que carrego no corpo de 3 cirurgias que tive que fazer na infância que corta meu quadril direito inteiro até o meio das minhas costas. e fico mesmo pensando como esse comportamento de ser grande e não se sentir grande se manifesta em tantas tantas outras coisas. em tantos outros campos. no não eu não sei fazer isso. no não eu não sou escritora. não eu não sou poeta. no não eu não sou boa o suficiente para merecer esse salário, esse cargo, esse elogio.

e sim, o que me fez falar mesmo, a fagulha de tudo isso além das inúmeras conversas que tenho tido com amigas e em rodas de conversas com mulheres e bem, em vários textões, falas, tweets, poemas. desatamos a falar e seguiremos porque sim, é importante falar e quanto mais a gente fala mais a gente ouve porque as pessoas respondem. essa fagulha veio também de um texto que li na semana passada da Paula Bernardelli (obg, Marina Gonçalves) que falava sobre como as pessoas se sentirem confortáveis em seus próprios corpos também dependia muito da nossa linguagem e em como nós tratamos e verbalizamos este assunto “a revolução do corpo vai começar primeiramente pela língua”. e o que eu queria falar é que eu concordo MUITO com isso. eu sofro com isso, luto contra isso e sou agente desse problema. eu sempre acabo falando em algum momento pra alguma amiga que emagreceu, pra algum membro da famíia, pra alguém “nossa, tá magra, tá linda.” eu continuo disseminado aquilo que não quero pra mim e eu que lutei 30 anos pra me sentir bem. precisamos parar de relacionar beleza com magreza. e de incentivar em nós mesmas essas cenas diante do espelho. a vontade dolorosa e cruel de fritar na manteiga um pedaço do nosso corpo, a gordurinha de trás do braço e pedir 200g de culote pra viagem.

ps: e quando digo que precisamos falar é porque quando uma fala todas falam. e sobre mim vou continuar me esforçando pra ver que a verdade mesmo é que talvez eu realmente seja grande, talvez eu seja enorme. e que bom isso. vamos ser grandes e vamos enxergar que somos grandes. de verdade.

ps2: e eu sempre lembro desse video com esse assunto.

Gabriela Gomes7 Comments