conheça: cadernetas de passeio.

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o meu pai sempre foi aquele cara que registrava todos os momentos das nossas viagens. e naquela época (início dos anos 90) fotografar e filmar significava carregar um grande trambolho (amo essa palavra) de equipamentos. tenho vários videos narrados pelo papai: "hello! estamos em orlando e hoje é dia 23 de agosto de 1990. a temperatura está por volta dos 23 graus e esse é o nosso café da manhã!".  

pra quem viajava naquela época sabe do que eu estou falando. existia todo um pacote de rituais inesquecíveis para uma criança dos anos 90. a magia que era ir todo mundo pro galeão deixar a família que ia viajar e depois claro, ir buscar. lembro de ficar ouvindo aquela voz  famosa do aeroporto internacional do galeão "american airlines voo 2017 com destino a ____" e ficar toda arrepiada. era muito mágico. o cheiro do free shop, as sacolas, o desejo de boa viagem! aproveitem! era dali pra imaginação. nada em tempo real. esperávamos as vezes as ligações feitas com aqueles cartões que tinham mil números. a voz viajava também.  

e uma das partes mais legais da própria viagem era voltar e reunir todo esse material em um grande encontro familiar, geralmente aos domingos <3  

o ritual era mais ou menos esse: realizava-se um lanche ou um almoço e os álbuns com as fotos reveladas eram passados de mãos em mãos. entregavam-se as lembrancinhas, encomendas, o perfume da moda, a camiseta GAP, a orelha da minnie, o chocolate, os imãs de geladeira, a câmera descartável do mickey, o tamagoshi. ao mesmo tempo era também o momento da contação de histórias, as cenas mais engraçadas, as ciladas, toda uma construção descritiva de como era a cidade, as comidas, os cheiros, como era o hotel, a enrolação com a língua, os melhores passeios. tudo era repassado só e somente depois da viagem. não tinha e-mail, whatsapp e muito menos stories. a gente tinha que esperar as pessoas voltarem pra sabermos exatamente como tinha sido a viagem. 

lembro com saudades da ansiedade que eu aguardava as pessoas voltarem. eu ficava imaginando, desenhando as cidades na cabeça, desejando todos os tipos de lembrancinha que poderiam vir de papelarias super especializadas. guardo até hoje com carinho uma macaca de pijama apelidada de caca. presente de um primo que já não está mais entre nós. 

as reuniões duravam a tarde toda e parte da noite dos finais de semana. e o auge era o momento do video. uma fitinha dentro de uma fitinha. uma fita grávida chamada de adaptador. e lá, nas imagens com as datas nos cantos, cenas tremidas, zero glamour, filtro pra quê e a voz do meu pai ecoando "biii olha pra cá" "bii me filma também" "estamos entrando aqui no nosso hotel, esse é o quarto, essa é a privada" e esse era o meu pai. (é, os videos dele até hoje são narrados da mesma maneira).

de um pai que sempre registrou memórias e de uma família que se reunia para contar histórias das viagens, e de uma tia querida que sempre compartilhou e me acompanhou com a paixão pela fotografia (éramos amigas de fotolog e flickr) eu acabei herdando a vontade de registrar as histórias das minhas viagens.

ganhei uma máquina nikon d60 num intercâmbio que fiz em 2008/2009. lá se vão quase 10 anos de uma máquina guerreira que vêm registrando os meus passeios desde então. o ritual geralmente é o mesmo. fotografo ao longo dos dias as cenas que quero lembrar. o que é um pouco irritante porque às vezes se torna obsessivo. mas ao longo dos anos tenho ficado preguiçosa, isso é verdade. e as fotos têm diminuído. 

com o intuito de não deixar essa década morrer nos backups de computador, nas nuvens do dropbox e do icloud, a dupla-face lança um selo especial: o cadernetas de passeio. um nome simples e literal pra dizer isso mesmo > uma série de publicações com coleções das fotografias que tenho guardadas ao longo desses 10 anos.

se não existem mais os rituais das contações, os álbuns da kodak, os videos com datas nos cantos, vou reunir nessas cadernetas de forma especial os dias que vivi nos lugares que visitei.

a primeira edição do cadernetas de passeio se chama "mini-tangerinas de delineador" e traz fotografias entre as regiões de portugal, itália e holanda. o nome é uma homenagem ao meu pai que nos cafés da manhã em roma roubava todas as mini-tangerinas e ficava olhando pra elas com um carinho como quem olha pra um filhote de qualquer coisa. e elas tinham essas folhas grandes que mais pareciam um olho longo piscando, delineado. 

a publicação está disponível para visualização aqui no issuu (ainda estou tentando entender como embedar aqui)  e também pode ser acompanhada no instagram no perfil @cadernetasdepasseio.

o impresso ainda é um sonho um pouco distante mas a gente segue sonhando e segue seguindo o baile — e baile que é baile sempre permitirá pleonasmos.

;)

Gabriela GomesComment